Seus pais brigaram na noite anterior, dormiram separados. Garoa fina, freiadas bruscas e gente sem educação, respeito e senso de ridículo pelo caminho. A passagem aumentou e a recompensa pra quem levanta e dá o lugar pra velhinha são pisões, empurrões, mais falta de educação e humilhação.
É uma eterna novela essa vida, eterna porque as coisas não se resolvem, um conflito segue o outro, mesmo quando a gente ta achando que viu a luz no fim do túnel. São 10 minutos de refrigério pra um mês de ranger de dentes.
O seu mundo já acabou faz tempo, mas você não desiste e meio-viva ou meio-morta, continua se arrastando, mesmo sem saber pra onde. Você não sabe se é por instinto ou medo, obrigação ou desejo, até porque o bip que te desperta 10 minutos mais tarde a cada dia, pra uns é fuga e pra outros prazer.
Você, no meio da multidão, quase derramando aquela lágrima que diz “vou por um fim em tudo isso porque eu não suporto mais”, quando de repente o mundo dá outra freiada, e você num reflexo rápido cria vinte mãos e se agarra em todas as barrinhas amarelas... se agarra pra não bater a cabeça, se agarra a vida, porque talvez valha a pena.
Estou fazendo outra vez. Tentando afogar meu desassossego numa nova paixão. Inevitável. Quem pode impedir a si mesmo de sonhar, mesmo que seja um sonho que certamente doerá? O pior é que eu não sou uma garota romântica, só sou obcecada por viver tudo de uma vez.
Numa noite muito quente eu me esqueci de olhos abertos e pela primeira vez em meses meu rosto estava seco de lágrimas. Eu mal ouvia a minha voz em meio aquela multidão e nem percebi na hora o quanto diferente eu estava ali. É como se uma parte de mim mesma tivesse vencido a Suzana ranzinza, a mal-humorada, a tímida, a estressada, a cética, a carente... eu parecia livre!
Meus olhos abertos enxergavam coisas que eu não via há tempos e pude enfim achar graça em novas pessoas. Eu me permiti ficar encantada por estranhos e a ver além da aparência por mais que um segundo. É impressionante como de olhos abertos eu fiz menos pré-julgamentos e muito bom ter interesse sincero por alguém de fora do meu ambiente, de fora do meu mundinho.
E mesmo que não dê em nada, me agarrando a isso eu me afasto mais um pouco dessa dor vazia e ao mesmo tempo tão arraigada aos meus ossos. Posso até não bancar a Felícia e tentar não armar planos mais mirabolantes que os do Cebolinha pra encontrar o cara no metrô, mas vou ser firme, pra ir em frente hoje. Porque ele parece delicado, tranqüilo, diferente... ele parece um pouco comigo... como eu nunca pensei nisso antes?
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